O vaivém que incomoda

O último capítulo de 2 Samuel é melancólico. Logo no primeiro versículo, se diz que “mais uma vez irou-se o Senhor contra Israel”. Ou seja, não foi a primeira vez que o povo eleito se comportou de modo inconveniente. Nem tampouco a segunda, a terceira, a décima ou a centésima vez. Até então, no final do reinado de Davi, lá pelo ano 970 antes de Cristo, Deus havia se aborrecido com Israel, quem sabe, milhares de vezes.

Para se ter uma ideia dos sucessivos aborrecimentos de Deus com os descendentes de Abraão, basta ler o resumo histórico que aparece logo no início de Juízes: “Quando o juiz morria, o povo voltava a caminhos ainda piores do que os caminhos dos seus antepassados, seguindo outros deuses, prestando-lhes culto e adorando-os.” (Jz 2.19.)

Na história de Israel logo após a ocupação da terra prometida (1210 a.C.) até o começo da monarquia (1030 a.C.), diz-se repetidas vezes que “mais uma vez os israelitas fizeram o que o Senhor reprova” (Jz 3.12; 4.1; 10.6). A mesma denúncia aparece com outras palavras em outras passagens: “De novo os israelitas fizeram o que o Senhor reprovava” (Jz 6.1); “Logo depois que Gideão morreu, os israelitas voltaram a prostituirse com os baalins” (8.33) e “os israelitas voltaram a fazer o que o Senhor reprova” (13.1). Foram 180 anos de desobediência, seguida de sofrimento, seguido de confissão de pecado, seguido de restauração, seguido de outra desobediência, outro sofrimento, outra confissão, outra restauração.

A história bíblica nada mais é do que a história da força do pecado humano e a história da força da misericórdia divina. Essa é também a história da igreja, desde a descida do Espírito até os nossos dias. É a nossa própria história.

É por isso que, na dedicação do templo de Jerusalém, Salomão colocou-se diante do altar, levantou as mãos para o céu e suplicou a Deus que, se mais uma vez o povo viesse a pecar, o Senhor também mais uma vez viesse a perdoar, caso os israelitas batessem outra vez no peito para confessar seu pecado (1Rs 8.46-51).

O alvo mais elevado, mais sábio, mais justo, mais compensador, é não aborrecer o Senhor em coisa alguma. Daí a exortação do apóstolo João: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem” (1Jo 2.1). Além da delicadeza devida ao Senhor por força tanto do temor como do amor, evitaríamos mil aborrecimentos para nós mesmos e para os que nos rodeiam, se puséssemos um ponto final nessas desagradáveis reincidências. O pecado deve ser uma casualidade, não uma estúpida rotina. Mas todas as vezes que ele ocorre, todas as vezes que o senso de culpa invade o coração, todas as vezes que o pecador se confessa pecador e recorre à misericórdia divina, o Senhor, mesmo irado e aborrecido, “mais uma vez”, ouve a confissão, perdoa o pecado e faz a higiene da alma (1Jo 1.9).

:: Revista Ultimato

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