Convencido da necessidade de participação da Igreja brasileira em missões na China enquanto ainda cursava “missiologia” no então Centro de Formação Missionária Diante do Trono, o missionário da Lagoinha, Vinícius, (um pseudônimo, uma vez que sua identidade precisa ser preservada) se colocou como instrumento nas mãos de Deus para atender a essa necessidade. Há alguns anos ele tem sido usado por Deus na China, como ele mesmo diz: “Há alguns anos tive o privilégio de ir para este campo e me dispor a tão precioso trabalho”. Em entrevista ao Atos Hoje, Vínicius revela aspectos da realidade social, política, cultura e espiritual, muito diferentes do que se tem costume de ler nos livros, nas revistas e de se ver na tela da TV. Confira:
Lagoinha.com: A China vive uma das maiores catástrofes naturais de todos os tempos, as enchentes que já vitimaram milhares de pessoas. O que o senhor tem ouvido a respeito do assunto? Quais têm sido as medidas governamentais para auxiliar a população nos locais afetados pelas enchentes?
V: As catástrofes naturais na China afetam sempre a população das pequenas cidades da China, onde a infra-estrutura é precária e o governo central só aparece através da figura do exército e para remediar a situação. O governo chinês tem um histórico recente de dar respostas rápidas a situações de desastres, em pouco tempo o exército já está presente nas áreas afetadas com equipamentos e suprimentos para atender a população. Mas não existem investimentos nessas regiões para prevenir esses desastres no futuro, assim a resposta não deixa de ser paliativa, o fato é que em 2011 essas mesmas áreas irão sofrer com deslizamentos. A igreja entra como peça chave nesse processo, onde só Cristo pode dar novamente a perspectiva de uma vida saudável.
Lagoinha.com: Outra notícia importante publicada nessa semana foi a elevação do país ao segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo. O que o senhor pode dizer acerca dos efeitos desse crescimento econômico na prática? Em sua opinião esse crescimento, por enquanto, de fato atinge somente as classes mais favorecidas ou caminha realmente para um futuro promissor que alcance de forma justa toda a população nacional?
V: É complicado falar sobre uma “forma justa” de distribuição de renda na China, porém comparando com outros países emergentes como Brasil ou Índia, a China parece estar num caminho mais certo. A China tem mais de 800 milhões de pessoas vivendo fora dos grandes centros urbanos, 112 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e 100 milhões de analfabetos, abandonados a governos locais corruptos e com pouco acesso a tudo que o crescimento da economia pode oferecer. Um ponto interessante é que não existe saúde e educação de graça na China, todos estes serviços, mesmo nas escolas públicas, são pagos. Nos grandes centros urbanos é visível o grande crescimento da classe média e o acesso fácil da população a serviços públicos de qualidade, com uma carga tributária e tarifas bem mais justas do que as aplicadas no Brasil, um bom exemplo é a tarifa normal para um ônibus de qualidade que é de R$0,30 (em reais) na China. Seria tarefa impossível ao governo chinês subsidiar toda a sua população, mas sem dúvidas hoje a China é uma terra de oportunidades, com uma classe média em ascensão.
Lagoinha.com: A China desperta uma curiosidade muito grande em todo o mundo, haja vista sua diferença cultural, econômica, social etc, principalmente em relação ao ocidente. Dê-nos um panorama sobre o país, baseando-se nas suas experiências diárias. O que poderia nos dizer acerca dessa nação tão única e distinta do resto do mundo?
V: A China é um país de proporções continentais, e apesar de manter o mandarim como língua ponte e o Renmimbi como moeda corrente em quase todo país (exceção a Hong Kong e Macau) a China é composta de diferentes mundos. Já viajamos de norte a sul da China de trem, vimos diferentes tipos de chineses, tibetanos, árabes, escuros, claros, falando diferentes línguas (praticamente em cada cidade chinesa se fala uma variação de uma grande língua chinesa), experimentamos grandes nevascas, furacões, terremotos, elementos que são muito diferentes de nossa realidade no Brasil. Ao mesmo tempo constatamos no chinês um orgulho de construir uma única, grande e sólida nação, segura (sem assaltos a mão armada), respeitando-se a figura do estado e da polícia; muitos enxergam os estrangeiros como fonte de lucro fácil, mas o chinês é antes de tudo um trabalhador, é comum de se ver nas grandes cidades lotes abandonados e debaixo dos viadutos pequenas plantações para subsistência. Um livro seria pouco para dar um panorama completo sobre este povo.
Lagoinha.com: O que poderia dizer acerca do trabalho que desenvolve na China, frente à perseguição?
V: A obra missionária avança na China há séculos, em alguns momentos com mais ou menos liberdade. Hoje a ação missionária é clandestina na China e não seria prudente narrar aqui as estratégias usadas para expandir o Reino de Deus naquela terra. A característica do missionário hoje na China não é contra governista, não vemos o governo como um inimigo e a Bíblia nos incentiva a orar por estas autoridades, não para que sejam substituídas, mas para que se convertam ao Senhor e cesse a perseguição.
Lagoinha.com: Em relação ao governo, o senhor acha que o comunismo está se enfraquecendo? Crê que esse sistema político caminha para o fim de um período que já dura 61 anos frente uma “relativa” abertura do país para o mundo?
V: Não acho que o comunismo vá cair na China e também não creio que o evangelho dependa da queda de um sistema político. O governo chinês faz um grande trabalho no desenvolvimento de seu país. Se ele cair, a economia entra em colapso, criando um cenário de desconfiança e descontrole, trazendo problemas inclusive para a Igreja. Outro ponto é que a igreja cresce a cada dia nas casas, não vejo porque mudar isso, a minha oração é para que acabe a perseguição às igrejas domésticas, para que elas tenham liberdade de exercer seu culto e dar treinamento adequado para seus líderes.
Lagoinha.com: O comunismo suplanta toda forma de manifestação cultural, religiosa, política etc que de alguma forma “prejudica” suas ideologias e ou afetam sua autoridade. Fruto dessa suplantação é a perseguição religiosa aos que de alguma forma disseminam as boas novas de Cristo no país. Baseando-se na sua experiência na nação, o que pode nos contar em relação a essa realidade que vive nossos irmãos chineses e missionários? Particularmente, como lida com isso? O senhor conhece algum testemunho que possa nos contar acerca dessa realidade?
V: O governo chinês é atualmente uma típica ditadura capitalista, tudo que ele suplanta é por medo de perder o controle sobre a sua gigantesca população. Todas as religiões têm que ser exercidas dentro dos moldes e espaços oficiais, que são escassos e muitas vezes não atendem ao básico da teologia cristã, o evangelismo é totalmente proibido, crianças não podem receber o evangelho, cada cristão só pode ter uma Bíblia, que só pode ser adquirida nas grandes cidades. Em muitas regiões da China, pastores são presos, torturados e acusados de crimes que não cometeram, ferindo as próprias leis chinesas, e mesmo quando elas são respeitadas a pressão psicológica é muito grande, mesmo sobre nós, estrangeiros, existe um estresse muito grande, pois vivemos uma vida bem diferente da que levávamos no Brasil, comunicando como criminosos, evangelizando como quem compra ou vende uma mercadoria ilegal, vivemos dias de incerteza, sem saber se amanhã não vai ser o dia de juntar tudo e ir embora, eu mesmo já fui interrogado e posso dizer que é uma sensação nada agradável, a família também sofre uma pressão. Um amigo chinês me disse que por muitos anos detestou o evangelho, pois esta foi a causa de seu pai viver anos longe de sua casa, em cadeias e fugas. Sua mágoa em “perder” tantos anos de convivência com o pai só foi extinta quando Jesus se revelou a ele e mostrou-lhe o valor do Cordeiro pelo qual seu pai deu a vida.
Lagoinha.com: Sabe-se que hoje a Igreja de Cristo chinesa é uma das que mais crescem em todo mundo. Em contrapartida, sabe-se também que ela têm muitas dificuldades para se desenvolver, haja vista a falta de líderes capacitados para ensinar, a falta de materiais de ensino, a perseguição constante, entre outros. Em sua opinião, qual é a maior necessidade da igreja cristã chinesa atualmente para alçar níveis mais altos?
V: Qualificar a liderança que já existe e elaborar processos de formação de líderes é sem dúvida o maior desafio para a igreja chinesa hoje. No Brasil, muitos leem o livro do irmão Yun (O Homem do Céu) e acham que todo chinês que se converte quer automaticamente ser um “evangelista itinerante”, mas isso não é verdade. O desafio de se encontrar pessoas e estratégias de envio é muito grande. Numa igreja que tem a responsabilidade de discipular 100 milhões de cristãos e evangelizar 800 milhões de pessoas que nunca ouviram falar de Jesus Cristo claramente, é um gigante a ser vencido.
Lagoinha.com: Há muitos prognósticos acerca do papel da Igreja chinesa no processo de preparação e evangelização de povos não alcançados em função da segunda volta de Jesus. O que poderia nos esclarecer a respeito desse assunto?
V: A Igreja chinesa cresce em casas e ainda não desenvolveu o hábito de sustentar seus pastores e muito menos seus missionários, poucas reuniões caseiras tem momentos para recolhimento de oferta, isso dificulta a obra local e faz com que os missionários chineses sempre dependam de milagres. O segundo ponto é o numero ainda pequeno de chineses dispostos a abraçar o ministério ou a obra missionária, que é naturalmente migratória. Homens são escassos no ministério e na liderança das igrejas clandestinas e das poucas missões chinesas. A China com certeza irá tomar seu lugar na evangelização mundial, temos visto sinais disso, mas creio que ainda existe um processo de maturação a ser concluído.
Lagoinha.com: Qual tem sido o seu maior desafio no trabalho que desenvolve no país?
V: Apesar de todas as limitações, a China é uma terra de oportunidades, o custo de vida não é alto, e o povo está sedento e aberto para receber o evangelho, que deve ser divulgado através do relacionamento e confiança. A busca de novas estratégias para divulgar o evangelho, que é constante, vencer meus preconceitos e aprender com o povo e a igreja chinesa quais são os melhores caminhos devem ser práticas cotidianas.
Lagoinha.com: Como e em quais aspectos a Igreja brasileira pode contribuir com a Igreja chinesa?
V: Pessoas precisam de pessoas. A percepção de Jesus em Lucas 10 é fantástica, quando fala a respeito da Seara, ele diz que “Na verdade, a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.” Poderíamos rogar por recursos, estratégias, ousadia, mas quando rogamos por pessoas, pedimos os vasos que virão cheios de tudo o que é necessário para desempenhar qualquer boa obra. A Igreja brasileira tem muito que acrescentar a este movimento, mostrando novas perspectivas, caminhos e teologias, superando o conservadorismo, hoje presente na maioria das estratégias missionárias na China.
Lagoinha.com: Deixe uma mensagem para a Igreja da Lagoinha e liste alguns motivos de oração para que as ovelhas possam sustentá-lo em oração e amor.
V: Somos uma pequena fração da Igreja da Lagoinha presente e participando deste tempo especial de Deus na China, contamos com as orações e o carinho para continuar superando os limites impostos, alcançando novas estratégias e rompendo em fé nessa tarefa de aumentar nossa família naquela terra. Orem para que Deus dê forças à liderança da igreja clandestina, principalmente aqueles que se encontram em fuga ou prisões. – Orem para que Deus envie novos companheiros, mostrando novos caminhos e estratégias para alcançarmos mais chineses. Orem pelos recursos, boas ideias sempre vêm acompanhadas de despesas. Orem pelo sustento dos obreiros locais, para soluções auto-sustentáveis de ministérios. Orem pelo governo chinês, para o fim da perseguição em igrejas caseiras.
:: Por Vanessa Freitas
Fonte: Lagoinha
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